Vendo um ente querido falecido em um sonho

A morte do meu avô e o que eu aprendi sobre família

2019.05.04 18:47 orpheu272 A morte do meu avô e o que eu aprendi sobre família

Foi numa terça-feira que o meu avô se foi. Lembro bem que um dia antes eu havia combinado com a minha tia de que eu iria tomar café da manhã na casa dos meus avós. Eu iria descer às 06:20 - horário em que meu irmão sai para estudar. Iria. Mas não fui.
Era 09:30, o céu estava fechando e, junto com o vento frio, eu senti a mesma nostalgia gelada de quando meu primo havia falecido lá em 2006. Talvez fosse um presságio; talvez minha cabeça esteja inserindo essas memórias falsas apenas para preencher a linha do tempo do que acontecera naquele dia.
Às 09:45 meu celular não parava de receber mensagens, quando vi era a minha tia ligando várias e várias vezes. Em meio as ligações, um áudio: "Meu filho, corra, corra que eu acho que o seu avô morreu!". Ela chorava em desespero. Eu reuni toda a calma e discernimento que eu consegui e pedi para que ela se acalmasse, que verificasse se realmente ele estava morto. A SAMU já estava lá realizando os procedimentos necessários, e nesse meio tempo eu estava correndo para a casa dos meus avós.
A caminhada da minha casa até a casa dos meus avós dura uns 15 min andando. Eu cheguei lá na metade desse tempo. Nem sequer eu abracei minha avó e a minha tia, corri direto para o quarto do meu avô. Lá estavam a equipe do SAMU. Eles colocaram a cama dele na parede e deitaram o seu corpo no chão. Todos ao seu redor, em meio a equipamentos. Naquele momento eu senti uma esperança, mesmo vendo que ele não abria os olhos. Naquele momento eu me vi cheio de fôlego ao saber que havia uma equipe ali para ele. Minha mãe chegou bem mais rápido do que eu, ela disse que o pessoal do SAMU havia dito que ele estava respirando, e isso só aliviou o que eu sentia. Mas o alivio se foi, assim como a esperança e tudo mais.
Um dos rapazes que o estava animando olhou para minha mãe e disse que eles fizeram tudo o que puderam fazer. Explicaram que a pupila dele estava dilatada e que isso era sinal de que a atividade cerebral havia cessado. Eu não sei bem explicar o que aconteceu ali, mas era como se em meio ao som metálico dos equipamentos sendo guardados, em meio aos passos de pessoas saindo do quarto e caminhando pela cozinha, em meio ao choro de desespero da minha avó e da minha tia, tudo não fizesse som. Sabe, era como um afogamento, como se algo estivesse ao redor impossibilitando o som, impossibilitando sentir algo. E era isso, pois eu não senti nada, nem tristeza, nem alegria, era ausência.
Eu me afastei do quarto, eu me retirei de mim. Lembro que me sentei na cama do quarto próximo à sala e apenas fiquei lá. Parado. Estático.
Eu divaguei e lembrei de cada momento que vivi com meu avô. Eu simplesmente lembrei de tudo, e por incrível que pareça, não houveram momentos ruins. Meu avô era extremamente bruto, mas tinha um coração imenso. Pra falar a verdade só houve um momento em que ele tentou bater em mim: eu tinha uns 7 anos e puxei o capô do carro dele, que bateu em sua cabeça. Ele correu atrás de mim com um pedaço de fio multímetro, mas não conseguiu me alcançar.
Após a equipe do SAMU sair, após os vizinhos que chegaram para saber o que estava acontecendo se reunirem na sala junto de minha avó, mãe e tia, eu fui até o quarto. Eu e meu avô, apenas nós dois. Sentado ali eu lembrei de nossa última conversa. Agora que estávamos apenas eu e ele, eu chorei, eu o abracei e chorei. Minha mãe foi até onde eu estava e tentou me tirar dali, mas eu não queria. Eu não deixei ele só.
Meu avô vinha lutando contra o Mal de Parkinson há 11 anos. Nos últimos meses isso se intensificou, a doença impossibilitava ele de andar, falar e fazer coisas simples, como comer e até sugar líquido através de um canudo. Meu avô amava viajar, dirigir e conhecer coisas novas. Foi uma afronta da vida permitir que ele terminasse daquela forma: prisioneiro do seu próprio corpo. Havia dias em que ele delirava, em que não sabia aonde estava, mas naquele dia - acredito que umas duas semanas atrás - ele estava consciente. Eu sentei do seu lado, olhei para ele e disse "eu gosto muito do senhor, de verdade". Meu avô era duro, mas muito emotivo. Ele chorou, ele tremia e chorava, e eu o abracei. Mesmo que eu não tenha ido vê-lo naquela manhã como eu havia prometido, eu sei que disse com toda minha sinceridade o que eu sentia por ele, e sei que ele sabia que eu o amava.
O corpo do meu avô ficou no seu quarto até às 15:00, hora em que a médica foi até a casa da minha avó preparar o laudo. Se o dia foi longo, a noite foi uma eternidade. Por causa da hora em que o corpo dele saiu de nossa casa, a funerária só o havia deixado pronto de madrugada. Eram 02:00 da manhã quando seu corpo chegou. Era madrugada, sem amigos, sem pessoas próximas, apenas nós, a família. Afinal, é apenas quem sobra no fim de tudo.
Por volta das 05:40 a família e os amigos começaram a chegar. O peso começou a ficar mais leve, pois havia mais gente para compartilhar, para chorar por perder e para rir por lembrar de coisas boas.
O meu avô tem três filhos fora do casamento e os três foram ao velório. Eu os notifiquei, eu procurei entrar em contato e garanti que eles iriam conosco para a cidade aonde meu avô nasceu (o velório foi em um local e o enterro em outro, em uma cidade há 98km de distância da nossa).
É na dor que tudo se fortalece, e é na dor que nós nos conhecemos e olhamos para dentro. Eu nunca imaginei que faria o que eu fiz.
Eu nunca imaginei que iria confortar aqueles meninos. Lá estavam eles sentido a mesma dor que eu sentia, chorando por um ente querido, tentando entender se aquilo era real. Eu estava com minha família ao meu redor para consolar, para se fortalecer em meio a dor; eles estavam sozinhos, apenas os três abraçados ao redor de gente que nunca viram na vida. Eu os chamei, puxei conversa, falei de como era o meu avô em nossa casa e eles fizeram o mesmo. Descobrimos juntos um outro lado da história, uma nova face daquela pessoa que amávamos. No fim, lembrei que não tínhamos em comum apenas o sobrenome ou um familiar que agora embarcou na jangada. Nós temos o mesmo sangue e isso é mais forte que qualquer mágoa ou decisão mal tomada.
Nós enterramos o nosso avô. Eu mesmo tive a honra de estar com uma pá jogando terra em seu caixão. A viagem foi rápida. Na volta, paramos em uma cidade para comer. Aquela cena é uma coisa que eu nunca imaginaria nem em meus sonhos mais torpes: minha avó, tia, pai, mãe e irmãos sentados na mesma mesa que os filhos "bastardos" do meu avô.
É interessante como as coisas acabam. Há ciclos que terminam para que outros nasçam e se ramifiquem. Hoje eu sinto saudade, mas tranquilo por saber que ele está bem melhor do que estava. Ele está livre do que o prendia e não sofre. Tenho orgulho do avô que eu tive e do exemplo de homem que ele foi.
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2019.05.04 18:44 orpheu272 A morte do meu avô e o que eu aprendi sobre família e perca

Foi numa terça-feira que o meu avô se foi. Lembro bem que um dia antes eu havia combinado com a minha tia de que eu iria tomar café da manhã na casa dos meus avós. Eu iria descer às 06:20 - horário em que meu irmão sai para estudar. Iria. Mas não fui.
Era 09:30, o céu estava fechando e, junto com o vento frio, eu senti a mesma nostalgia gelada de quando meu primo havia falecido lá em 2006. Talvez fosse um presságio; talvez minha cabeça esteja inserindo essas memórias falsas apenas para preencher a linha do tempo do que acontecera naquele dia.
Às 09:45 meu celular não parava de receber mensagens, quando vi era a minha tia ligando várias e várias vezes. Em meio as ligações, um áudio: "Meu filho, corra, corra que eu acho que o seu avô morreu!". Ela chorava em desespero. Eu reuni toda a calma e discernimento que eu consegui e pedi para que ela se acalmasse, que verificasse se realmente ele estava morto. A SAMU já estava lá realizando os procedimentos necessários, e nesse meio tempo eu estava correndo para a casa dos meus avós.
A caminhada da minha casa até a casa dos meus avós dura uns 15 min andando. Eu cheguei lá na metade desse tempo. Nem sequer eu abracei minha avó e a minha tia, corri direto para o quarto do meu avô. Lá estavam a equipe do SAMU. Eles colocaram a cama dele na parede e deitaram o seu corpo no chão. Todos ao seu redor, em meio a equipamentos. Naquele momento eu senti uma esperança, mesmo vendo que ele não abria os olhos. Naquele momento eu me vi cheio de fôlego ao saber que havia uma equipe ali para ele. Minha mãe chegou bem mais rápido do que eu, ela disse que o pessoal do SAMU havia dito que ele estava respirando, e isso só aliviou o que eu sentia. Mas o alivio se foi, assim como a esperança e tudo mais.
Um dos rapazes que o estava animando olhou para minha mãe e disse que eles fizeram tudo o que puderam fazer. Explicaram que a pupila dele estava dilatada e que isso era sinal de que a atividade cerebral havia cessado. Eu não sei bem explicar o que aconteceu ali, mas era como se em meio ao som metálico dos equipamentos sendo guardados, em meio aos passos de pessoas saindo do quarto e caminhando pela cozinha, em meio ao choro de desespero da minha avó e da minha tia, tudo não fizesse som. Sabe, era como um afogamento, como se algo estivesse ao redor impossibilitando o som, impossibilitando sentir algo. E era isso, pois eu não senti nada, nem tristeza, nem alegria, era ausência.
Eu me afastei do quarto, eu me retirei de mim. Lembro que me sentei na cama do quarto próximo à sala e apenas fiquei lá. Parado. Estático.
Eu divaguei e lembrei de cada momento que vivi com meu avô. Eu simplesmente lembrei de tudo, e por incrível que pareça, não houveram momentos ruins. Meu avô era extremamente bruto, mas tinha um coração imenso. Pra falar a verdade só houve um momento em que ele tentou bater em mim: eu tinha uns 7 anos e puxei o capô do carro dele, que bateu em sua cabeça. Ele correu atrás de mim com um pedaço de fio multímetro, mas não conseguiu me alcançar.
Após a equipe do SAMU sair, após os vizinhos que chegaram para saber o que estava acontecendo se reunirem na sala junto de minha avó, mãe e tia, eu fui até o quarto. Eu e meu avô, apenas nós dois. Sentado ali eu lembrei de nossa última conversa. Agora que estávamos apenas eu e ele, eu chorei, eu o abracei e chorei. Minha mãe foi até onde eu estava e tentou me tirar dali, mas eu não queria. Eu não deixei ele só.
Meu avô vinha lutando contra o Mal de Parkinson há 11 anos. Nos últimos meses isso se intensificou, a doença impossibilitava ele de andar, falar e fazer coisas simples, como comer e até sugar líquido através de um canudo. Meu avô amava viajar, dirigir e conhecer coisas novas. Foi uma afronta da vida permitir que ele terminasse daquela forma: prisioneiro do seu próprio corpo. Havia dias em que ele delirava, em que não sabia aonde estava, mas naquele dia - acredito que umas duas semanas atrás - ele estava consciente. Eu sentei do seu lado, olhei para ele e disse "eu gosto muito do senhor, de verdade". Meu avô era duro, mas muito emotivo. Ele chorou, ele tremia e chorava, e eu o abracei. Mesmo que eu não tenha ido vê-lo naquela manhã como eu havia prometido, eu sei que disse com toda minha sinceridade o que eu sentia por ele, e sei que ele sabia que eu o amava.
O corpo do meu avô ficou no seu quarto até às 15:00, hora em que a médica foi até a casa da minha avó preparar o laudo. Se o dia foi longo, a noite foi uma eternidade. Por causa da hora em que o corpo dele saiu de nossa casa, a funerária só o havia deixado pronto de madrugada. Eram 02:00 da manhã quando seu corpo chegou. Era madrugada, sem amigos, sem pessoas próximas, apenas nós, a família. Afinal, é apenas quem sobra no fim de tudo.
Por volta das 05:40 a família e os amigos começaram a chegar. O peso começou a ficar mais leve, pois havia mais gente para compartilhar, para chorar por perder e para rir por lembrar de coisas boas.
O meu avô tem três filhos fora do casamento e os três foram ao velório. Eu os notifiquei, eu procurei entrar em contato e garanti que eles iriam conosco para a cidade aonde meu avô nasceu (o velório foi em um local e o enterro em outro, em uma cidade há 98km de distância da nossa).
É na dor que tudo se fortalece, e é na dor que nós nos conhecemos e olhamos para dentro. Eu nunca imaginei que faria o que eu fiz.
Eu nunca imaginei que iria confortar aqueles meninos. Lá estavam eles sentido a mesma dor que eu sentia, chorando por um ente querido, tentando entender se aquilo era real. Eu estava com minha família ao meu redor para consolar, para se fortalecer em meio a dor; eles estavam sozinhos, apenas os três abraçados ao redor de gente que nunca viram na vida. Eu os chamei, puxei conversa, falei de como era o meu avô em nossa casa e eles fizeram o mesmo. Descobrimos juntos um outro lado da história, uma nova face daquela pessoa que amávamos. No fim, lembrei que não tínhamos em comum apenas o sobrenome ou um familiar que agora embarcou na jangada. Nós temos o mesmo sangue e isso é mais forte que qualquer mágoa ou decisão mal tomada.
Nós enterramos o nosso avô. Eu mesmo tive a honra de estar uma pá jogando terra em seu caixão. A viagem foi rápida. Na volta, paramos em uma cidade para comer. Aquela cena é uma coisa que eu nunca imaginaria nem em meus sonhos mais torpes: minha avó, tia, pai, mãe e irmãos sentados na mesma mesa que os filhos "bastardos" do meu avô.
É interessante como as coisas acabam. Há ciclos que terminam para que outros nasçam e se ramifiquem. Hoje eu sinto saudade, mas tranquilo por saber que ele está bem melhor do que estava. Ele está livre do que o prendia e não sofre. Tenho orgulho do avô que eu tive e do exemplo de homem que ele foi.
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